O CAMINHO PERIGOSO
De acordo com os dados compilados pela OMC – Organização Mundial do Comércio – o fantasma do protecionismo está de volta, causando danos irreparáveis ao comércio internacional e, com isso, dificultando o incipiente ritmo de recuperação da economia globalizada que, nos últimos anos e com contadas exceções, mal tem conseguido evitar uma recessão catastrófica.
No caso do G20 – as 20 maiores economias do mundo, incluso o Brasil, que respondem por praticamente 90% das trocas globalizadas – as medidas restritivas implantadas seguem um roteiro muito conhecido, assim descrito por Charles Edwin, reconhecido especialista da UNTAD: “Quando a economia mundial afunda, o monstro protecionista emerge com sua conhecida volúpia para eliminar todo e qualquer progresso nas relações comerciais entre as nações”.
Infelizmente, assim caminha (para trás) a humanidade. Não está demais lembrar que, em 1930, o Congresso dos EUA disparou o primeiro tiro na guerra protecionista que, para desencanto de seus idealizadores, trouxe mais lenha na fogueira que prolongou a Grande Depressão. Foi a lei Smoot-Hawley, elaborada com o objetivo manifesto de proteger os empregos domésticos, que impediu a importação de 20 mil tipos de mercadorias e produziu uma bola de neve com retaliações em todas as partes que efetivamente estancou o comércio global. E, de vários modos, contribui para afundar ainda mais a economia mundial, que somente se recuperou com o formidável empurrão da II Grande Guerra, a partir de 1939.
É claro que não podemos ignorar as pressões protecionistas quando as economias estão vacilando, a produção interna despencando e o desemprego subindo. Ainda que de parte dos mandos dos governos exista o habitual superávit de boas intenções, na prática é fácil – e politicamente vantajoso – utilizar medidas que podem ser “vendidas” à opinião pública – melhor, eleitores – ao preço de liquidação de benefícios no curto prazo, devidamente embalados em fartas promessas. “Depois, no futuro, quando a fatura inevitavelmente chega, o problema já é de outros”.
Para todos os participantes no comércio internacional– exportadores, importadores, terminais de cargas, bancos, seguradoras, empresas de transporte, empresas de serviços logísticos, operadores, fabricantes de equipamentos, prestadores de serviços, etc. – 2023 liga uma luz amarela anunciando tempos difíceis acarretados pela redução de atividades, com os conhecidos efeitos colaterais no arrefecimento dos negócios.
Ponderando friamente a questão, nada mais justo que proteger empregos, capitais, soberania, tecnologia e o orgulho do “feito em casa”. Se elevar a proteção do mercado interno é a solução para solucionar problemas cruciais, nada a dizer. No entanto, o remédio tem que ser cuidadosamente dosado, não pode habituar o paciente e deve ter duração limitada. Porque, caso contrário, o doente (a economia) vai ter seu sofrimento mantido por muito, muito tempo.
Ou, em outras palavras: O comércio internacional é uma via de duas mãos. O que significa, no final da história, que os benefícios (?) obtidos pelas restrições às importações são anulados pelos problemas ocasionados no setor exportador, o que, como efeito negativo importante, diminui a capacidade de desenvolvimento sustentável do país. E, convenhamos, isso é muito, mas muito grave!

